Paisagem e usos do território no interior centro.
Centro


Cresci a atravessar o país. Não de propósito — era assim que se viajava em casa: por estradas secundárias, por vilas que não estavam em nenhum roteiro, com uma família que tinha aprendido, na luta contra o Estado Novo, que o país real ficava sempre um pouco fora do que se via de Lisboa. 
Havia um idealismo nessa geração — o idealismo de Abril — que prometia que essa distância se ia fechar. Não fechou completamente, ou fechou mal. Temos redes, rodoviárias, de comunicação, digitais, sociais, que parecem aproximar tudo e abrir caminhos novos, mas o isolamento continua. Falando ainda de infraestruturas, a ferrovia é uma promessa adiada, as redes viárias regionais ou locais só agora merecem atenção, as redes sanitárias fora das cidades, ainda não. O planeamento continua a ditar uma paisagem de povoados e construção demasiado dispersos, de condições difíceis de acesso aos meios, de gestão territorial de florestas e áreas verdes deficitárias.

Um terço da população portuguesa vive hoje num território que ocupa quatro quintos do país — e esse território envelhece mais depressa do que qualquer outro na Europa. A diferença entre a Área Metropolitana de Lisboa e o Alentejo, em densidade populacional, é de quarenta vezes. António Barreto chamou-lhe, ao longo de sete volumes de “Portugal, um Retrato Social”, o país que a modernidade portuguesa não acabou de fazer. Investigadores mais recentes — Mauritti, Nunes, Alves e Diogo, a escrever em 2019 sobre desigualdades territoriais — usam a palavra semiperiferia: nem plenamente dentro, nem plenamente fora. O geógrafo Álvaro Domingues refere-os como territórios rurbanos. O Centro parte de uma coincidência que não é bem coincidência: o centro geográfico de Portugal — Médio Tejo, Beira Baixa, Região de Coimbra — é também onde esse país semiperiférico se concentra com mais intensidade. Três dos cinco concelhos com envelhecimento mais severo do país estão aqui. Idanha-a-Nova tem uma densidade populacional mais baixa do que a média do Alentejo. E é também aqui neste centro que a Urso Hermético tem sede — não por acaso, mas porque um projeto que quer trabalhar dentro de um território, e não só sobre ele, tem de começar por estar lá. A ideia deste projeto é a de sair novamente país fora e ver o que lá está; para ver as marcas das relações sociais, dos mandos e desmandos, das decisões das políticas centralizadas, na paisagem. As marcas de uso dos lugares, os fragmentos visuais dos seus hábitos, das suas relações com o espaço, da realidade das suas condições.

Ficha do projeto  
Autoria
Miguel Rodrigues
Território
Médio Tejo, Beira Baixa, Região de Coimbra (36 concelhos)
Método
Fotografia documental + investigação artística
Estado
Em construção



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